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TRÊS POEMAS DE MARCUS VINICIUS
QUIROGA
Teoria
Não é a palavra que
escrevo
é a escolha da palavra
A teoria me
olha
Mas não cedo
Os versos não seguem
cegos
pela estrada
O bastão na mão e o
arrependimento
Poema não aceita o
destino
O poema se
assina:
Só existe a
história
O grafite e a
folha
Não sou escravo da
palavra
escrevo a
escolha
Estudo para
Aleijadinho
a lepra de
Aleijadinho
esculpe na
pedra
como se outra
pele
o drama
imóvel
com cinzéis
tortos
dá forma a
profetas
com discursos
outros
e uma outra
lepra
se as mãos se
crispam
fechando o
mundo,
resgatam feições de
cristos
com rugas de
perguntas
dentro de um
século
lento, elabora
não-horas
na pedra de
supostas
permanências
se a arte também
aleija
e se afasta de
medidas
faz-se ladeira, rua
estreita,
faz-se beco sem
saída
irregular se
ergue,
como quem se
movimenta
em calçamento de
pedra
pelo país, em noite
deserta
arte de dedos
disformes,
por onde escorrem
certezas,
contraria regras e
normas
se quer grotesca,
feia
com sua baixa
estatura
e corpo mal
conformado
propunha-se na arte
da fuga
a fazer de pedra voo
alto
enquanto lá fora a
peste
apodrece corpos e a
morte
se espalha pela
arte
em movimento
inerte
aqui a lepra por
ironia
iria se fazer
estética
e se marcaria como
letra
ou melhor, cicatriz,
sequela
na via-crúcis, os
passos
tornam-se tontos,
tortos
como se fôssemos
todos aleijados
num mundo em
desordem
e o mestre e
artesão,
ofertou seu corpo em
partes
e foi se retorcendo
para ser
ele a própria arte
Arquitetura e
asas
Quem planeja, desenha
limiares,
não superfícies
fechadas, paredes,
não toldos, telhas,
tetos, mas áreas
que se soltam das
linhas das maquetes
No ofício de ver o
ainda invisível,
argamassa desejos com
pó de asa,
porque dentro de toda
pedra vive
o avesso da pedra, de
nome audácia
Quem habita, joga no
espaço uma âncora,
sente o peso do porão
e fantasmas,
entra em contato com
o que havia antes,
que o tempo é também
uma espécie de casca
Logo quem habita uma
casa, habita
os dias que se abrem
em quartos, salas
com janelas de
fundos, cuja vista
é paisagem interna,
temporária
Quem planeja, desenha
perspectivas,
não supõe o
inesperado despejo,
interdito de muros,
cerca viva,
separação sem recurso
ou apelo,
traça no papel a vida
viável,
o chão que nasce
através dos passos,
com arquitetura que
se sabe ave
e não se prende às
regras da sintaxe
Quem habita, habita
limiares
como se para além da
régua e compasso
houvesse a morada
solta nos ares
dentro de insuspeitos
tempos e espaços
Quem do concreto um
dia se desgarra
faz casas só de
sonhos e
presságios |